100
Avaliação Psicológica Forense de Homicídio na Prisão de Calomboloca de 2020 a
2021
Forensic Psychological Assessment of a Homicide at Calomboloca Prison from
2020 to 2021
Evaluación Psicológica Forense de un Homicidio en la Cárcel de Calomboloca
entre 2020 y 2021
|
Nuno Osvaldo Tiago
1
Instituto Superior Politécnico do Kilamba,
Angola
prof.nunotiago@gmail.com
|
1
Doutorando em Psicologia Forense. Docente do ISPP-Kilamba.
RESUMO: Este estudo visa compreender a avaliação psicológica forense como actividade profissional de
diagnóstico de perturbações mentais leves, moderadas e severas desencadeadoras de crimes contra as
pessoas, sobretudo os de homicídio, em Angola. Especificamente, identifica as diferentes concepções de
actuação dos psicólogos no Estabelecimento Prisional de Calomboloca, sito em Icolo e Bengo, província
de
Luanda,
no
período
de
2020
a
2021.
Metodologicamente,
adoptou-se
uma
pesquisa
aplicada,
de
natureza qualitativa e objectivo exploratório. A observação directa, a escuta activa dos intervenientes e a
entrevista
semi-estruturada
permitiram
a
recolha
de
dados
numa
amostra
não
probabilística
por
conveniência de seis psicólogos. O tratamento dos dados foi efectuado mediante a técnica de análise de
conteúdo, organizada por domínios temáticos, categorias e subcategorias. Os resultados evidenciaram que
a entrevista de acompanhamento (
follow-up
) é o método mais utilizado pelos psicólogos em contexto
prisional durante os programas especiais de avaliação psicológica do controlo penal. Por outro lado, a
personalidade, o comportamento e os sentimentos criminais constituem os constructos mais avaliados na
fase de execução da pena. Sugere-se a elaboração de políticas públicas aliadas à formação permanente de
psicólogos para responder às exigências de avaliação da imputabilidade e inimputabilidade criminal no
sistema de justiça e direitos humanos de Angola.
Palavras-chave: Avaliação psicológica forense, Crime, Homicídio, Prisão
ABSTRACT: This study aimed to understand forensic psychological evaluation as a professional activity
for diagnosing mild, moderate, and severe mental disorders that trigger crimes against persons, specifically
homicide in Angola. It specifically aimed to analyze the operational conceptions of psychologists working
at the Calomboloca Prison (Icolo e Bengo, Luanda Province) from 2020 to 2021. The Angolan judicial
system and auxiliary agencies, such as the Criminal Investigation Service and the Penitentiary Service, face
growing concern regarding the population deprived of liberty for simple and qualified homicide offences.
Methodologically, this qualitative, exploratory applied research utilized direct observation, active listening,
and semi-structured interviews to collect data from a non-probabilistic sample of six psychologists. Data
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were
processed
using
content
analysis
techniques
divided
into
thematic
domains,
categories,
and
subcategories.
Results
indicated
that
follow-up
interviews
are
the
primary
method
employed
by
psychologists in prison settings within special assessment programs for penal control, while personality,
behavior, and criminal sentiments are the most frequently assessed constructs during sentence execution.
We
propose
the
development
of
public
policies
combined
with
ongoing
specialized
training
for
psychologists to meet the demands of criminal responsibility and non-imputability within the national
justice and human rights system.
Keywords: Forensic psychological evaluation, Crime, Homicide, Prison.
RESUMEN: Este estudio tuvo como objetivo comprender la evaluación psicológica forense como una
actividad
profesional
para
el
diagnóstico
de
trastornos
mentales
leves,
moderados
y
graves
desencadenantes de delitos contra las personas, especialmente homicidios en Angola. Específicamente,
analizó
las
diferentes
concepciones
de
actuación
de
los
psicólogos
que
ejercen
en
la
Prisión
de
Calomboloca (Icolo e Bengo, Luanda) entre 2020 y 2021. El sistema judicial angoleño y sus órganos
auxiliares, como el Servicio de Investigación Criminal y el Servicio Penitenciario, muestran preocupación
por el incremento de personas privadas de libertad por delitos de homicidio simple y cualificado. Se aplicó
una investigación de tipo cualitativo, exploratorio y aplicado, utilizando la observación directa, la escucha
activa y la entrevista semiestructurada para la recolección de datos en una muestra no probabilística de seis
psicólogos. Los datos se procesaron mediante análisis de contenido sistemático. Los resultados mostraron
que las entrevistas de seguimiento constituyen el método más utilizado en el entorno penitenciario, siendo
la personalidad, el comportamiento y los sentimientos criminales los constructos evaluados con mayor
frecuencia en la fase de ejecución de la pena. Se sugiere el desarrollo de políticas públicas y la formación
continua de psicólogos para responder a las demandas de imputabilidad e inimputabilidad penal en el
sistema angoleño de justicia y derechos humanos.
Palabras clave: Evaluación psicológica forense, Delito, Homicidio, Prisión.
Introdução
O homicídio constitui um fenómeno social complexo, um crime contra a vida e um dos actos
antissociais mais graves da história das sociedades humanas. Criminologicamente, o homicídio é
definido como toda a acção voluntária ou omissão praticada por um indivíduo da qual resulta a
destruição da vida de outro ser humano. Em termos psicológicos e comportamentais, o acto
homicida engloba diversas manifestações — desde o homicídio por negligência até ao homicídio
voluntário e premeditado —, sendo influenciado por factores de risco individuais, relacionais,
psicopatológicos
e
ambientais,
tais
como
a
impulsividade,
o
consumo
abusivo
de
álcool
e
substâncias psicoactivas.
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Em Angola, a incidência do crime de homicídio representa um desafio premente para o sistema
de justiça e para a segurança pública. Dados estatísticos apresentados por Manuel (2017) indicam
que, entre 2005 e 2013, se registaram 20 982 cidadãos privados de liberdade por crimes de
homicídio no país. Adicionalmente, a Organização das Nações Unidas (2019) aponta o registo de
1
254
homicídios
no
território
nacional
em
2017.
Este
volume
elevado
de
casos
penaliza
a
infraestrutura de assistência social, médica e psicológica do sistema penitenciário angolano, que
conta com 40 estabelecimentos prisionais distribuídos pelo país.
O ordenamento jurídico angolano confere ao direito à vida uma tutela constitucional fundamental
(Constituição da República de Angola [CRA], 2010). No âmbito do Código Penal Angolano
(CPA, Lei n.º 38/20, de 11 de Novembro), os crimes contra a vida encontram-se tipificados nos
artigos 147.º a 152.º:
-
Homicídio simples (Art. 147.º): punível com moldura penal de 14 a 20
anos de prisão.
-
Homicídio qualificado em razão dos meios (Art. 148.º): punível com 20 a
25 anos de prisão.
-
Homicídio qualificado em razão dos motivos (Art. 149.º): punível com 20
a 25 anos de prisão.
-
Homicídio
qualificado
em
razão
da
qualidade
da
vítima
(Art.
150.º):
punível com 20 a 25 anos de prisão.
-
Infanticídio (Art. 151.º) e homicídio negligente (Art. 152.º): puníveis com
pena de até 3 anos de prisão.
O sistema penal angolano prevê a aplicação bipartida de sanções: penas de prisão para indivíduos
dotados de imputabilidade e capacidade de responsabilidade criminal, e medidas de segurança
para cidadãos portadores de transtornos mentais graves que determinem a sua inimputabilidade
absoluta ou relativa. Ademais, no plano da execução penal, a legislação assegura ao indivíduo
condenado o direito ao acompanhamento médico-psiquiátrico e psicológico para despiste de
anomalias
psíquicas
e
individualização
das
medidas
privativas
de
liberdade
adaptadas
à
sua
perigosidade.
Perante este cenário, emerge a seguinte questão central de investigação: quais são as concepções
e os métodos de actuação dos psicólogos na avaliação psicológica forense de reclusos condenados
por homicídio no Estabelecimento Prisional de Calomboloca?
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Para responder a esta problemática, formulou-se como objectivo geral compreender a prática da
avaliação psicológica forense como actividade de diagnóstico e acompanhamento de perturbações
mentais e do comportamento criminal em indivíduos condenados por homicídio em Angola.
Paralelamente, constituem metas específicas deste estudo:
-
1.
Identificar os métodos e técnicas de avaliação psicológica utilizados pelos
psicólogos em contexto prisional;
-
2.
Caracterizar
os
construtos
psicológicos
e
sentimentos
criminais
(culpa,
arrependimento, perigosidade) mais avaliados na fase de execução da pena;
-
3.
Mapear o circuito institucional e as entidades às quais são reportados os
diagnósticos e pareceres psicológicos;
-
4.
Examinar o papel dos programas de avaliação e reabilitação psicológica no
contexto penitenciário.
O estudo centra a sua análise empírica no Estabelecimento Prisional de Calomboloca (EPC),
localizado
no
Município
do
Ícolo
e
Bengo
(Província
de
Luanda),
elevado
à
categoria
de
estabelecimento integrado dos Serviços Penitenciários a 12 de Dezembro de 2013. A investigação
articula-se com a actuação da Direcção de Assistência e Reabilitação Penitenciária (DARP), órgão
encarregue de conceber, aplicar e fiscalizar os programas de reabilitação psicossocial e garantir o
cumprimento das normas de Direitos Humanos e a concessão de benefícios penais (como a
liberdade condicional).
A relevância deste trabalho reside na necessidade de produzir conhecimento empírico sobre a
prática
pericial
e
assistencial
angolana,
fornecendo
subsídios
para
a
padronização
de
procedimentos
diagnósticos,
para
a
formação
contínua
de
técnicos
e
para
a
formulação
de
políticas públicas de reinserção social e saúde mental penitenciária.
Enquadramento Teórico
A Avaliação Psicológica Forense
vs.
Actuação Terapêutica
A avaliação psicológica forense diferencia-se substancialmente da avaliação clínica e terapêutica
tradicional. Conforme salienta Huss (2011), enquanto a avaliação terapêutica tem por objectivo
principal diagnosticar e reduzir o sofrimento psicológico do paciente, a avaliação forense visa
responder a uma questão legal objectiva para auxiliar o tribunal ou as autoridades judiciárias na
tomada de decisões. Na perícia forense, o principal destinatário e cliente do parecer técnico é o
sistema de justiça e não o examinado.
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Embora
a
literatura
internacional
enfatize
o
uso
de
metodologias
combinadas
—
incluindo
entrevistas
semi-estruturadas
(como
a
Psychopathy
Checklist-Revised
[PCL-R])
e
testes
de
personalidade objectivos e projectivos (
Minnesota Multiphasic Personality Inventory
[MMPI-2],
Rorschach) —, a realidade angolana enfrenta desafios estruturais relevantes. A partir de 2023,
Angola
deu
início
à
formação
superior
especializada
em
Psicologia
Criminal
e
Forense.
No
entanto,
persiste
um
défice
na
regulamentação
da
ordem
profissional
dos
psicólogos
e
uma
escassez de instrumentos e testes psicológicos devidamente aferidos e validados para a população
angolana.
Método (s)
Tipo, Paradigma e Desenho de Investigação
Para
responder
à
problemática
da
avaliação
psicológica
forense
de
homicidas
no
contexto
penitenciário
angolano,
adoptou-se
uma
pesquisa
aplicada,
de
natureza
qualitativa
e
com
objectivo exploratório.
-
Natureza qualitativa: a opção pelo paradigma qualitativo justifica-se pela necessidade
de apreender o significado, a lógica interna e as conceptualizações que os próprios
psicólogos
atribuem
à
sua
prática
pericial
e
assistencial,
indo
além
de
medições
estatísticas.
-
Objectivo
exploratório:
devido
à
reduzida
literatura
empírica
publicada
sobre
a
actuação
psicológica
no
Serviço
Penitenciário
em
Angola
e
à
ausência
de
testes
psicológicos
aferidos
para
a
população
penal
local,
a
abordagem
exploratória
permitiu mapear os métodos, desafios e circuitos institucionais utilizados na prática.
-
Carácter aplicado: a investigação procura gerar conhecimentos práticos e orientações
metodológicas
directamente
úteis
para
a
Direcção
de
Assistência
e
Reabilitação
Penitenciária (DARP) e para a formação contínua de peritos e psicólogos prisionais.
Campo de Estudo e Caracterização do Local
O estudo empírico foi realizado no Estabelecimento Prisional de Calomboloca (EPC), localizado
no Município de Icolo e Bengo (Província de Luanda), na Comuna de Cassoneca, situado a cerca
de 95 km da cidade de Luanda.
O
EPC
foi
elevado
à
categoria
de
estabelecimento
integrado
dos
Serviços
Penitenciários
de
Angola a 12 de Dezembro de 2013. Trata-se de uma unidade penitenciária de alta relevância no
país, vocacionada para a execução de penas privativas de liberdade de reclusos condenados por
crimes graves, com destaque para os homicídios simples e qualificados.
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Participantes e Amostragem
A
amostra
do
estudo
foi
constituída
por
seis
psicólogos
em
exercício
de
funções
no
Estabelecimento Prisional de Calomboloca. A selecção dos participantes seguiu uma amostragem
não probabilística por conveniência, atendendo aos critérios de acessibilidade, disponibilidade e
envolvimento directo no acompanhamento e avaliação de reclusos condenados por homicídio.
A caracterização socioprofissional dos participantes (codificados de E1 a E6) revela uma equipa
com
diversidade
de
idades
(dos
28
aos
58
anos),
equilíbrio
de
género
(três
homens
e
três
mulheres) e formação académica superior em Psicologia (cinco licenciados e um mestre). No que
tange
à
experiência,
o
tempo
de
serviço
no
Ministério
do
Interior
(MININT)/Serviço
Penitenciário varia entre 6 e 23 anos, e o tempo de exercício profissional como psicólogo situa-
se entre 4 e 9 anos.
Tabela 1 -
Caracterização Socioprofissional da Amostra dos Participantes
|
Código
|
Idade
|
Sexo
|
Estado Civil
|
Grau
Académico
|
Profissão /
Função
|
Patente / Posto
|
Tempo de
Serviço (Anos)
|
Experiência
como
Psicólogo
(Anos)
|
Vinculação
Institucional
|
|
E1
|
28
|
M
|
Solteiro
|
Licenciado
|
Psicólogo
Prisional
|
Superintendente
|
7
|
7
|
MININT
/
SP
|
|
E2
|
33
|
F
|
Solteira
|
Mestre
|
Psicóloga
Forense
|
Subinspectora
|
6
|
9
|
DARP / SP
|
|
E3
|
36
|
M
|
Casado
|
Licenciado
|
Psicólogo
Prisional
|
—
|
6
|
6
|
MININT
/
SP
|
|
E4
|
44
|
M
|
Solteiro
|
Licenciado
|
Psicólogo
Prisional
|
Subchefe
|
23
|
4
|
MININT
/
SP
|
|
E5
|
53
|
F
|
Casada
|
Licenciada
|
Psicóloga
Prisional
|
Subinspectora
|
23
|
6
|
MININT
/
SP
|
|
E6
|
58
|
F
|
Casada
|
Licenciada
|
Psicóloga
Prisional
|
—
|
6
|
6
|
MININT
/
SP
|
Fonte: Autor
Legenda: MININT = Ministério do Interior; SP = Serviço Penitenciário; DARP = Direcção de
Assistência e Reabilitação Penitenciária.
Instrumentos e Técnicas de Recolha de Dados
A recolha de dados primários assentou na triangulação de três técnicas complementares:
-
1.
Observação directa: utilizada para registar as dinâmicas de interacção, reacções
emocionais e comportamentos não-verbais dos sujeitos em ambiente prisional.
-
2.
Escuta activa: aplicada durante os contactos com os profissionais para captar as
percepções e dinâmicas do trabalho técnico de assistência psicossocial.
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-
3.
Entrevista
semi-estruturada:
constituiu
o
instrumento
central
da
investigação,
guiada por um guião de oito questões abertas focadas nas concepções, métodos e
práticas de avaliação forense.
Guião de Entrevista e Eixos Temáticos
O guião de entrevista foi concebido com base na literatura de Psicologia Forense (p. ex., Agulhas
& Anciães, 2017; Huss, 2011) e desdobrou-se nas seguintes oito questões de pesquisa:
Q1: Quem é o homicida para si?
Q2: Para si, o que é a avaliação forense?
Q3: Como define o método para avaliar o homicida?
Q4: Como profissional, que métodos usa para avaliar o homicida no contexto
penitenciário?
Q5: Para o caso do homicida em concreto, que objectivo tem cada método por si
referenciado?
Q6: Fale sobre os sentimentos criminais que os homicidas revelam durante a
avaliação psicológica forense (causas, culpa e mudança de comportamento).
Q7:
Como
e
a
quem
reporta
os
resultados
da
avaliação
do
estado
mental
e
comportamental do homicida?
Q8:
Comente
os
programas
de
avaliação
psicológica
para
homicidas
no
estabelecimento prisional.
Procedimento de Validação dos Instrumentos e de Análise de Dados
Para assegurar a validade de conteúdo e a clareza conceptual das questões formuladas, o
guião de entrevista foi submetido a validação por peritos. Adicionalmente, realizou-se um estudo-
piloto prévio com um psicólogo do sistema penitenciário (não incluído na amostra final) para
aferir a adequação da linguagem e o tempo de aplicação das perguntas.
Os dados qualitativos recolhidos nas entrevistas foram gravados, transcritos integralmente
e submetidos à técnica de análise de conteúdo categorial (Bardin, 2011). O processo analítico
cumpriu três fases fundamentais:
-
1.
Pré-análise: leitura flutuante do material transcrito, constituição do
corpus
de análise e preparação dos indicadores.
-
2.
Exploração do material: codificação e recorte das unidades de registo (UR)
e unidades de contexto (UC).
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-
3.
Tratamento dos resultados e interpretação: categorização dos dados em
domínios temáticos, categorias e subcategorias.
Tabela 2 -
Matriz da Análise de Conteúdo (Domínios, Categorias e Subcategorias)
|
Domínios Temáticos
|
Categorias Analíticas
|
Subcategorias de Análise
|
|
Domínio 1: Crime
de Homicídio e O
Homicida
|
1.1.
Conceptualização
do Homicida
|
a)
Conceitos
jurídicos
vs
.
Psicopatológicos;
b) Comportamentos associais e antissociais
|
|
1.2.
Sentimentos
e
Dinâmicas Criminais
|
a) Sentimento de culpa e arrependimento;
b) Perigosidade, dissimulação e reincidência
|
|
Domínio 2:
Avaliação
Psicológica Forense
|
2.1.
Definição
e
Métodos de Avaliação
|
a) Conceito de avaliação forense;
b)
Entrevistas
clínicas,
follow-up
e
observação;
c)
Testagem
psicológica
(Rorschach
e
questionários)
|
|
2.2.
Destinatários
e
Diagnóstico
|
a) Relatórios para a DARP e Controlo Penal;
b) Pareceres para o Tribunal e Concessão de
Liberdade Condicional
|
|
2.3.
Programas
e
Reabilitação
|
a) Programas especiais e acompanhamento
na execução da pena;
b) Direitos humanos e reinserção social
|
Fonte: Autor
Limitações Metodológicas do Estudo
Reconhecem-se as seguintes limitações metodológicas na interpretação dos achados:
-
1.
Dimensão
e
natureza
da
amostra:
a
utilização
de
uma
amostra
reduzida
e
não
probabilística,
por
conveniência,
limita
a
generalização
estatística
dos
resultados
para a totalidade dos psicólogos do Serviço Penitenciário de Angola.
-
2.
Circunscrição geográfica: o estudo centrou-se exclusivamente no Estabelecimento
Prisional
de
Calomboloca,
podendo
não
reflectir
as
condições
técnicas
e
operacionais de outros estabelecimentos penitenciários das restantes províncias do
país.
-
3.
Escassez de instrumentos aferidos: a ausência de testes psicológicos e escalas de
avaliação de risco devidamente adaptadas e validadas para a população angolana
condiciona
a
uniformidade
das
respostas
dos
participantes
relativamente
aos
métodos de testagem.
Apresentação dos Resultados
A apresentação dos dados empíricos organiza-se em redor das oito questões de pesquisa
que constituíram o guião de entrevista semiestruturada aplicado à amostra de seis psicólogos (E1
a E6) no Estabelecimento Prisional de Calomboloca.
Questão 1: Conceitualização do homicida ("
Quem é o homicida para si
?")
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A análise das respostas dos participantes revela uma conceitualização primariamente focada na
dimensão comportamental directa e no resultado do acto (a destruição da vida humana):
E1: “Aquele que acomete a morte de muitas pessoas”.
E2: “A pessoa que mata uma outra pessoa ou que comete assassinato”.
E3: “A pessoa que atenta contra a vida, que mata outra pessoa”.
E4: “A pessoa que assassina outra pessoa ou indivíduo agressivo”.
E5: “Um indivíduo com índice criminal de ter tirado a vida humana várias vezes”.
E6: “Indivíduo que tira a vida de outrem”.
As
definições
dos
técnicos
convergem
na
caracterização
jurídica
e
objectiva
do
crime
de
homicídio (tirar a vida a outrem), identificando tanto episódios situacionais/únicos como padrões
de reincidência («várias vezes» / «muitas pessoas»). Observa-se, contudo, uma ausência inicial de
elementos
de
diagnóstico
psicopatológico
ou
de
traços
de
personalidade
nessas
definições
primárias.
Questão 2: Definição de avaliação forense ("
Para si, o que é a avaliação forense?
")
Os
entrevistados
conceitualizam
a
avaliação
psicológica
forense
através
da
sua
utilidade
instrumental para o sistema de justiça e para a determinação do estado mental do examinado:
E1: “A avaliação da capacidade ou incapacidade do indivíduo”.
E2: “É a avaliação feita em contexto de sistema legal (sistema de justiça e auxiliar) ...
ou seja, estuda o comportamento de pessoas em situações juridicamente relevantes”.
E3: “É o meio utilizado pelo perito forense para determinar e discutir o impacto de
uma experiência traumática num determinado indivíduo”.
E4:
“É
o
estudo
que
se
faz
ao
comportamento
dos
indivíduos,
que
busca
conhecimentos
para
ajudar
o
sistema
legal,
procura
saber
como
são
cometidos
crimes”.
E5: “É um exame científico, desenvolvido por um especialista de psicologia forense,
realizado
com
o
uso
de
métodos
e
técnicas
reconhecidas
pela
psicologia,
com
objetivo de elaborar análises e conclusões sobre factos e pessoas, apontando uma
possível correlação de causas e efeitos, além de identificar a motivação e as alterações
psicológicas dos agentes envolvidos em um processo judicial”.
Destaca-se a resposta de E5 pela sua abrangência técnica, definindo a avaliação como um exame
científico
de
causas,
motivações
e
alterações
psicológicas.
As
restantes
respostas
situam
correctamente
o
foco
da
avaliação
forense
no
auxílio
às
decisões
legais
e
no
diagnóstico
da
capacidade/imputabilidade criminal.
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Questão 3: Definição do método para avaliar o homicida ("
Como define o método para avaliar
o homicida?"
)
Na definição do método, os participantes apontam diferentes ângulos de abordagem técnica:
E1: “Define o método a partir do «acto cometido pelo homicida”.
E2: “Recorre à abordagem do «método cognitivo-comportamental”.
E3: “Pauta a sua actuação pela realização de «uma entrevista profunda ao sujeito”.
E5: “Articula a avaliação através dos «métodos de entrevista psicológica e o método
de observação”.
Questão 4: Métodos utilizados no contexto penitenciário ("
Como profissional, que métodos usa
para avaliar o homicida no contexto penitenciário
?")
A caracterização das ferramentas de trabalho em Calomboloca revela a seguinte distribuição
técnica:
E1: Afirma utilizar maioritariamente a «Entrevista».
E3: Refere o recurso ao «Método de Rorschach» e à compilação histórica de dados.
E5: Aplica «Entrevistas e testes psicológicos».
E6: Centra a sua intervenção exclusivamente em «Entrevistas».
A
entrevista
(clínica,
forense
e
de
acompanhamento)
surge
como
o
método
universal
e
predominante na prática diária. Embora E3 e E5 façam referência ao uso de testes psicológicos
e projectivos (Rorschach), o contexto de escassez de instrumentos aferidos em Angola condiciona
a frequência e a padronização desta testagem.
Questão 5: Objectivos de cada método referenciado ("
Para o caso do homicida em concreto, que
objectivo tem cada método por si referenciado
?")
Os psicólogos detalham as finalidades específicas de cada técnica na fase de execução da pena:
E1:
“O
objectivo
[do
teste
e
entrevista]
é
de
avaliar
a
personalidade...
emoções,
impulsividade, sentimentos”.
E2: “Discriminou por técnicas de observação: avalia a expressão facial, corporal e
nível
de
empatia;
Discurso:
avalia
o
nível
de
arrependimento
ou
culpabilidade;
Motivação: avalia o nível de psicopatologia; Anamnese: avalia o histórico familiar e
elementos influenciadores”.
E3: “O método de Rorschach tem como objetivo
identificar e tratar o
homicida
através do estudo da personalidade”.
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110
E4: “Avaliar as condições afectivas e intelectuais do sujeito, traços de personalidade
e funcionamento em situações de ansiedade e depressão”.
E5:
“O
objectivo
do
questionário
e
teste
psicológico
é
analisar
o
processamento
emocional para fornecer diagnósticos adicionais; a entrevista investiga aspectos da
vida e o funcionamento psicológico; a observação permite detectar comportamentos
manipuladores, dissimulação e simulação”.
E6:
“Procurar
entender
as
causas
que
levam
o
indivíduo
a
ter
essas
condutas
indicadoras”.
Questão 6: Sentimentos criminais, causas e culpa ("
Fale sobre os sentimentos criminais que os
homicidas revelam durante a avaliação.
..")
Os resultados apontam para uma grande heterogeneidade e para a presença marcante de
estratégias defensivas e de dissimulação:
E1:
“Sublinha
que
«cada
homicida
tem
a
sua
personalidade»
e
que
o
meio
sociocultural molda essas manifestações”.
E2: Aponta a prevalência da racionalização e dissimulação: “Alegam sempre "auto-
defesa", demonstram um sentimento de arrependimento
forçado ("fingimento"),
e
dizem
que
já
não
cometem
o
mesmo
crime,
mas
na
maioria
das
vezes
são
reincidentes”.
E3: Observa a presença de “sentimentos de culpa e arrependimento” na maioria dos
avaliados.
E5:
Destaca
a
resistência
defensiva:
“Pode
não
ser
colaborativo
e
apresentar
resistência
consciente
devido
à
natureza
coercitiva
da
avaliação...
Pode
intencionalmente
distorcer
dados,
ter
comportamentos
frios
e
calculistas
ou
agressivos”.
E6: Refere objectivamente que “normalmente os reclusos, na maioria das vezes, não
apresentam sentimentos de culpa”.
Questão 7: Destinatários do diagnóstico ("
Como e a quem reporta os resultados do seu trabalho
?")
As respostas dos técnicos expõem uma diversidade de circuitos institucionais e destinatários do
parecer psicológico:
E1: Reporta internamente à “área de assistência psicológica”.
E2: Reporta ao “controlo penal e à reabilitação penitenciária para a avaliação do
processo de liberdade condicional e passe extrapenal”.
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E3: Emite pareceres periciais dirigidos às autoridades judiciais: “Os resultados devem
ser reportados ao tribunal, sempre que for solicitado
um parecer,
através de um
informe pericial psicológico”.
Questão
8:
Programas
de
avaliação
psicológica
em
contexto
prisional
("
Comente
sobre
os
programas de avaliação para homicidas...")
Os
participantes
salientam
o
valor
humanitário
e
reabilitador
dos
programas
de
acompanhamento:
E2: Destaca a avaliação das relações interpessoais “com os outros reclusos e com o
efetivo prisional”.
E3: Refere que os programas integram “o processo reabilitativo do indivíduo com
vista a reintegrar o homicida na sociedade”.
E6: Sublinha a dimensão dos Direitos Humanos: “São de grande importância porque
defendem
os
direitos
humanos
desses
sujeitos
em
cumprimento
de
pena...
procurando construir a cidadania por meio de projectos para a reinserção social”.
Discussão Crítica e Integração Teórica
A
Conceitualização
do
Homicida:
Tensão
entre
o
senso
comum
e
o
diagnóstico
psicopatológico
Os resultados da Questão 1 demonstram que os psicólogos de Calomboloca definem o homicida
através de uma perspectiva maioritariamente comportamental e jurídica («aquele que tira a vida a
outrem»), alinhando-se com a definição do Código Penal Angolano (Arts. 147.º a 150.º) e com a
literatura criminológica clássica (Born, 2005; Costa, 2019).
Contudo, do ponto de vista da psicologia forense (Agulhas & Anciães, 2017; Huss, 2011), a
avaliação
pericial
exige
ultrapassar
a
mera
constatação
do
acto
criminoso
para
investigar
os
determinantes da acção:
-
1.
Actos
pró-sociais
vs.
antissociais:
O
homicídio
enquadra-se
como
um
comportamento antissocial directo (Born, 2005), traduzindo a intenção deliberada
ou a negligência grave contra a vida humana.
-
2.
Macrogénese e microgénese da delinquência: Conforme propõe Greeff (1973,
citado por Born, 2005), o psicólogo forense deve examinar tanto a macrogénese
(o historial de vida, os antecedentes familiares, o abuso de substâncias e os maus-
tratos na infância) quanto a microgénese (os factores desencadeantes imediatos e
o estado emocional no momento da passagem ao acto).
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112
A
escassez
de
elementos
psicopatológicos
nas
definições
iniciais
dos
entrevistados
sugere
a
necessidade de reforçar a formação teórica especializada em psicopatologia criminal, permitindo
diferenciar homicídios decorrentes de impulsividade/consumo de substâncias (Manuel, 2013)
daqueles originados por perturbações da personalidade (por exemplo, psicopatia/antissocial) ou
por quadros psicóticos (inimputabilidade).
A Prática Pericial em Angola: Predomínio da entrevista e o dilema dos testes não aferidos
A
convergência
das
respostas
nas
Questões
3,
4
e
5
confirma
que
a
entrevista
de
acompanhamento
(
follow-up
)
e
a
observação
directa
constituem
os
pilares
fundamentais
da
avaliação em Calomboloca. Este achado reflecte os dados da literatura internacional (Nicholson
& Norwood, 2000, citados por Huss, 2011), indicando que a entrevista clínica e forense é utilizada
por
85%
a
100%
dos
peritos
prisionais,
superando
amplamente
a
testagem
psicológica
estandardizada.
Entretanto, emerge uma contradição metodológica e ética relevante no discurso dos participantes:
-
1.
Enquanto
participantes
como
E3
e
E5
afirmam
utilizar
o
Teste
de
Rorschach e questionários de personalidade, o próprio contexto da psicologia em Angola
(como
assinalado
por
Manuel,
2017,
e
no
enquadramento
inicial)
caracteriza-se
pela
ausência
de
um
Instituto
de
Avaliação
Psicológica
e
pela
falta
de
testes
devidamente
aferidos e validados para a população angolana.
-
2.
A
aplicação
de
testes
projectivos
(como
o
Rorschach)
sem
tabelas
normativas locais ou sem cotação estandardizada (e.g., Sistema Compreensivo de Exner)
introduz um elevado risco de viés de interpretação e subjectividade. Na avaliação forense,
em
que
o
diagnóstico
pode
determinar
a
concessão
da
liberdade
condicional
ou
o
internamento em medida de segurança, a utilização de instrumentos não adaptados viola
os padrões deontológicos da testagem psicológica (Huss, 2011).
Por
conseguinte,
a
prevalência
da
entrevista
semi-estruturada
e
do
exame
do
estado
mental
representa a escolha metodológica mais prudente e cientificamente sustentável no actual estágio
de desenvolvimento da psicologia forense em Angola.
A Dupla Função do Psicólogo Prisional: Perícia
vs
. Acompanhamento terapêutico
A análise integrada das Questões 2, 5 e 7 traz à tona uma tensão deontológica central na prática
no Estabelecimento Prisional de Calomboloca: a sobreposição entre o papel de avaliador pericial
e o de agente de apoio terapêutico/reabilitação.
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113
Como teorizado por Heilbrun (2003) e Huss (2011), a avaliação forense distingue-se radicalmente
da avaliação clínica/terapêutica em cinco dimensões cruciais, descritas na Tabela 3. Tabela 3 -
Matriz Comparativa — Avaliação Terapêutica vs. Avaliação Forense
|
Dimensão
|
Avaliação Terapêutica
(Clínica)
|
Avaliação Psicológica Forense
|
|
Meta
/
Objectivo
Principal
|
Diagnosticar
para
tratar
e
reduzir
o
sofrimento
psicológico do paciente.
|
Responder
a
uma
questão
legal
objectiva
para
auxiliar
a
tomada
de
decisão do tribunal/órgão penal.
|
|
Identidade
do
Cliente
|
O
próprio
indivíduo
examinado (paciente).
|
O Tribunal, o Controlo Penal ou a
Direcção Penitenciária (DARP).
|
|
Natureza da Relação
|
De
aliança,
apoio,
empatia
e
confidencialidade médica.
|
De
investigação,
ceticismo
profissional,
imparcialidade
e
neutralidade.
|
|
Garantia
de
Confidencialidade
|
Protegida
por
segredo
profissional estrito.
|
Limitada; os achados são vertidos em
relatório pericial para terceiros.
|
|
Atitude
do
Examinado
|
Geralmente
voluntária
e
colaborativa.
|
Frequentemente
coercitiva,
com
risco
elevado
de
simulação
ou
dissimulação.
|
Fonte: Autor
No contexto de Calomboloca, os psicólogos afectos à Direcção de Assistência e Reabilitação
Penitenciária (DARP) acumulam a responsabilidade de realizar o acompanhamento psicossocial
do recluso e, simultaneamente, de emitir pareceres diagnósticos que influenciam a concessão de
benefícios penais (liberdade condicional e passe extrapenal).
Como
apontado
por
E5
na
Questão
6,
o
recluso
adopta,
frequentemente,
uma
postura
de
"resistência
consciente"
,
"frieza"
ou
"dissimulação"
ao
perceber
que
o
psicólogo
actua
como
avaliador decisivo para a sua liberdade. Esta fusão de papéis compromete a aliança terapêutica
necessária à reabilitação e reduz a fiabilidade dos dados recolhidos durante a avaliação.
Sentimentos Criminais e Avaliação da Perigosidade e Reincidência
As respostas à Questão 6 evidenciam a complexidade do exame da personalidade do homicida
durante a execução da pena. Os relatos de E2, E5 e E6 coincidem com os estudos de agressão e
criminalidade violenta (Bardin, 2011; Huss, 2011):
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114
-
ambiente prisional desenvolvem estratégias de adequação social para impressionar a
equipa técnica, verbalizando arrependimento sem que haja uma genuína reflexão
crítica ou empatia pela vítima.
-
2.
Racionalização e vitimização: a invocação sistemática da
"auto-defesa"
como causa do
crime visa mitigar a responsabilidade moral e jurídica, justificando a passagem ao acto.
-
3.
Ausência de culpa e perigosidade: a constatação de E6 de que a maioria dos reclusos
não apresenta sentimentos genuínos de culpa é um indicador clínico relevante de
traços
de
insensibilidade
emocional
(
callous-unemotional
traits
)
e
de
elevada
perigosidade social, correlacionando-se com taxas superiores de reincidência criminal
após a soltura.
Circuito Institucional e Dispersão na Reportagem dos Resultados
A
Questão
7
revela
uma
ausência
de
padronização
nos
fluxos
de
informação
da
avaliação
psicológica:
A prestação de informação varia entre o reporte interno à assistência psicológica (E1), o envio
para a DARP e Controlo Penal para instrução do processo de liberdade condicional (E2), e a
resposta formal a quesitos do Tribunal através de informe pericial (E3).
Esta
dispersão
confirma
a
inexistência
de
um
Protocolo
Nacional
de
Avaliação
Psicológica
Pericial para o Serviço Penitenciário. A falta de uma estrutura uniforme para a elaboração de
relatórios
forenses
(que
cumpra
as
directrizes
científicas
de
separar
factos
de
inferências
e
minimizar o jargão clínico inconclusivo, como recomendado por Huss (2011) fragiliza o valor do
parecer psicológico perante os magistrados e os conselhos de disciplina prisional.
Desafios Estruturais e Limitações da Prática Prisional em Angola
A análise conjunta dos dados empíricos e da discussão permite sintetizar os principais obstáculos
enfrentados pelos psicólogos no Estabelecimento Prisional de Calomboloca:
-
1.
Escassez
de
fontes
de
informação
colateral:
a
avaliação
forense
exige
a
consulta
de
arquivos
institucionais
(registos
clínicos
prévios,
fichas
criminais
detalhadas,
históricos
escolares) e entrevistas com terceiros/família (Goldstein, 2003, citado por Huss, 2011).
Em Calomboloca, a escassez de processos individuais organizados força os técnicos a
depender quase exclusivamente do relato verbal do recluso.
-
2.
Défice de ferramentas de avaliação de risco: inexistência de escalas estandardizadas de
avaliação de risco de violência futura (como o VRAG ou o HCR-20) e de diagnóstico de
psicopatia (PCL-R) aferidas para Angola.
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115
-
3.
Necessidade
de
regulamentação
e
formação
especializada:
embora
a
formação
universitária em Psicologia Criminal e Forense tenha iniciado em 2023, persiste a urgência
da institucionalização da Ordem dos Psicólogos de Angola e da criação de programas de
capacitação técnica contínua para os efetivos do Ministério do Interior.
Conclusões
A
presente
investigação
permitiu
compreender
a
prática
da
avaliação
psicológica
forense
no
contexto penitenciário angolano, tomando como campo empírico o Estabelecimento Prisional
de Calomboloca no período de 2020 a 2021. A partir da análise qualitativa das respostas da
amostra de seis psicólogos (E1 a E6), destacam-se as seguintes conclusões centrais:
-
1.
A entrevista de acompanhamento (
follow-up
) e a observação directa afirmam-se como os
métodos primários e universais utilizados pelos psicólogos prisionais em Calomboloca.
Esta opção alinha-se com a prática pericial internacional, demonstrando ser a estratégia
mais viável perante as condições operacionais do sistema penitenciário local.
-
2.
Durante a fase de cumprimento da pena, a avaliação psicológica incide maioritariamente
sobre
a
estrutura
da
personalidade,
o
comportamento
antissocial
e
os
sentimentos
criminais (grau de culpa, motivações, arrependimento e risco de reincidência). Constatou-
se
uma
forte
presença
de
estratégias
defensivas,
tais
como
a
dissimulação
do
arrependimento, o fingimento e a racionalização do crime sob o pretexto de "auto-defesa".
-
3.
O
estudo
colocou
em
evidência
a
escassez
de
instrumentos
e
testes
psicológicos
devidamente aferidos e validados para a população angolana. Embora alguns profissionais
refiram o uso ocasional de testes projectivos (como o Rorschach), a ausência de normas
populacionais locais limita a validade psicométrica e a uniformidade da testagem pericial.
-
4.
Identificou-se uma sobreposição de papéis nos profissionais, que actuam em simultâneo
na avaliação pericial (para o tribunal e para a concessão de liberdade condicional pelo
controlo penal) e no acompanhamento psicossocial e reabilitação afectos à Direcção de
Assistência
e
Reabilitação
Penitenciária
(DARP).
Esta
acumulação
de
funções
gera
ambiguidades
deontológicas
e
reflecte
a
ausência
de
um
circuito
institucional
padronizado.
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116
Com base nos achados, sugerem-se as seguintes
acções prioritárias para o
sistema
de
justiça e penitenciário de Angola:
-
Padronização
institucional:
elaboração
de
um
Protocolo
Nacional
de
Avaliação
Psicológica Pericial
para o Serviço Penitenciário, definindo critérios uniformes para a
instrução de processos de liberdade condicional e relatórios ao tribunal.
-
Adaptação
de
instrumentos:
financiamento
de
projectos
de
investigação
académica
voltados
para
a
tradução,
adaptação
e
validação
de
escalas
de
avaliação
de
risco
de
violência (ex.: VRAG, HCR-20) e testes de personalidade para a realidade angolana.
-
Capacitação
e
regulamentação:
Promoção
de
programas
de
formação
contínua
em
Psicologia Criminal e Forense para os efetivos do Ministério do Interior, em articulação
com a institucionalização da Ordem dos Psicólogos de Angola.
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Heilbrun, K. (2003).
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Huss, M. T. (2011).
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Manuel, F. P. (2003).
Homicídios em Angola: Caracterização criminológica, psicológica,
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Manuel, F. P. (2017).
Crime e psicologia no sistema penitenciário
(1.ª
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117
Organização das Nações Unidas. (2019, 9 de julho). Homicídios mataram mais do que
conflitos armados em 2017.
Jornal O País
.
https://opais.co.ao/index.php/2019/07/09/homicidios-
mataram-mais-do-que-conflitos-armados-em-2017/
Recebido: 06 de Outubro de 2025
Aceite: 19 de Setembro de 2026
Creative
Commons
Attribution-Non
Commercial
4.0
International
License
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Ao
submeter
o
manuscrito, o autor está ciente de que os direitos de autor passam para a Revista Científica do
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do
Instituto
Superior
Politécnico
Privado
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Kilamba,
que
mantém
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próprios a Revista.
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